Uruguai além da erva-mate

Segue o artigo que publiquei na quinta-feira no Globo A+, o vespertino para iPdas do Globo.

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Uruguai além da erva-mate

Se para muitos a proposta uruguaia para legalização da maconha é um sinal de vanguarda, para outros, inclusive  movimentos históricos pela liberação da “marijuana”, a medida é um retrocesso.

Não há outro assunto possível no Uruguai. Nas famílias, bares, igrejas, táxis, jornais, TV, escritórios e universidades todos debatem a proposta do governo de legalizar e estatizar a venda de maconha. A direita tem uma nova bandeira contra a gestão de José Mujica. O governo, entretanto, alega que isso está sendo excessivamente valorizado agora e que no futuro o país será lembrando como vanguarda nesse ponto, como foi no século passado ao ser a primeira nação da região a legalizar a prostituição e o álcool — vale lembrar que o Congresso uruguaio, há alguns anos, aprovou a  legalização do aborto, vetada na última hora pelo então presidente Tabaré Vázquez.

Mas o que chama a atenção nas ruas de Montevidéu é que até mesmo os defensores da liberação da “marijuana”, como se diz por aqui, são contrários ao projeto. A primeira crítica é que esta proposta foi lançada em um pacote de quinze medidas contra a violência – e muitos não vêem relação entre estes dois pontos. Mas o que criou uma oposição entre os fumadores foi o controle estatal, o cadastro de usuários e a venda exclusiva para o estado. Eles sempre lutaram pela  liberação do auto-cultivo e são contra uma supervisão estatal. Afinal, o que acontecerá com eles se a lista dos usuários se tornar pública?

Taxistas e idosos, por exemplo, se dizem envergonhados com a proposta, enquanto jovens e estudantes, felizes com o debate, dizem que o país caminha para ser “primeiro mundo”. Outros assuntos paralelos dominam até os programas de fofoca nas tardes de TV: como será a punição para quem for pego dirigindo após consumir maconha? Nas rodas de  amigos, chama a atenção na proposta a liberação de 40 cigarros de maconha por mês. Qual o embasamento “científico” para isso? A maioria não duvida: a regra foi um cigarro por dia e alguns sobressalentes para o fim de semana. Mas eles gostam, mesmo, é de imaginar como foi a discussão para definir a cota entre os ministros do país….

O principal argumento do governo é que é necessário acabar com a hipocrisia, que a venda regulamentada retira o usuário do jugo do traficante e do acesso a drogas mais pesadas, além de permitir uma arrecadação extraordinária de impostos, que teria todo o dinheiro arrecadado destinado ao tratamento de viciados. Mujica afirma que quer seguir o modelo sueco de venda de álcool, regulamentada e estatizada, repetindo mais uma vez a admiração que o socialista e ex-guerrilheiro tem pelo país nórdico.

Mas a oposição não dá trégua. Acredita que a legalização será o primeiro passo para que “as crianças uruguaias” entrem no mundo das drogas e afirmam que o governo deveria é ampliar o combate ao crack, problema social por aqui. Opositores lembram que a medida está na contramão do que ocorre com a bebida e com o cigarro, cada vez mais restringidos. Denúncias sobre um eventual plantio de maconha para testes na “Embrapa” local esquentam ainda mais os debates.

Mas afinal, a maconha será legalizada no Uruguai? Ninguém sabe ao certo responder esta questão. Politicamente a avaliação é que Mujica não perdeu popularidade com este projeto, mantendo cerca de 50% de aprovação e mostrando que também o Uruguai é um país muito dividido politicamente. Parte relevante da população vê com bons olhos a medida. Numericamente, Mujica tem os votos necessários no Congresso para aprovar sua proposta. Mas se dois deputados de sua base não votarem com o presidente o projeto não avança. E a população acredita que este risco é real. O ex-presidente Tabaré Vázquez pode ser fundamental neste processo, pois ele é tido como principal candidato
para as eleições de 2014, pela ampla frente de esquerda que já o elegeu e que agora conta com Mujica no governo. Médico por formação, Vázquez é muito influenciado pela mulher, ligada á igreja católica, e isso pode ser um problema para essa proposta —  e, dizem por aqui, teria sido um dos motivos para vetar a legalização do aborto. Como o ex-presidente é muito influente, pode virar um ou dois votos do governo e aí a legalização da maconha não passa. Muitos dizem que a chave da votação no Congresso estará em suas mãos.

Mas tudo ainda está em aberto. Pode ser que o país queira que a posição vanguardista prevaleça sobre a natureza conservadora dos uruguaios – tanto é assim que já está voltando o debate para a legalização do aborto e Mujica disse que não vetará a medida, mas que no atual Congresso não terá uma tramitação tão fácil, com mais deputados ligados á igreja. O fato é que já há outra erva, além da erva-mate do chimarrão, concorrendo a ser símbolo do Uruguai.

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